domingo, 19 de fevereiro de 2017

Isabel

Vamos fingir que é domingo, Isabel. Vamos fingir que a gente acabou bem, que tivemos de fato um fim. Vamos fingir que eu não volto, e fingir que você não me quer também. Vamos fingir serenidade, maturidade. Vamos fugir da realidade. E quem sabe, Isabel, assim eu possa me sentar outra vez sem o medo de que um pensamento desvairado seu me ocorra a mente e me faça cair na contra-mão. 

Vamos fingir que a dor não existe, Isabel. Ou você. Ou eu. E que seu nome é mudo e apenas o chá de camomila lhe pode escrever através das manchas que ficaram na nossa mesa da cozinha. Vamos fingir, por favor, pois estou cansado de fugir. Eu desisto desse contrato social de tentar ser forte e enfrentar, ou do próprio contra senso de correr. Não quero nada disso, não me encaixei. Você não se encaixou. Eu dei a mão pra esse mundo inteiro e me querem o dorso, o pescoço e tudo o que eu nunca imaginei oferecer.

Então vamos fingir que é domingo, que eu sentei na minha mesa, escrevi um texto sobre outra mulher, tomei um café forte e passei o dia bem. Vamos fingir que seu corpo nunca tocou o meu, que sua mão nunca entrelaçou a minha. Vamos fingir, pelo amor de quem for. O problema não é não dormir. Eu tenho sim dormido a noite. O problema é estar o resto do dia acordado e ter tudo o que vivemos sendo lembrado, traço por traço, desenhado na frente dos meus olhos acordados, toda vez que alguém sem querer me lembra de você. 

Isabel, vamos fingir que o seu cigarro apagou junto com o nosso nunca-amor (quase-amor?). Vamos fingir que você não fuma mais, e que eu não procuro em toda a fumaça de bar o seu batom escuro. 

Isabel, hoje é domingo.

(João Doederlein)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quantas vidas você tem?

"Meu amor
Vamos falar sobre o passado depois
Porque o futuro está esperando
Por nós dois

Por favor
Deixe meu último pedido pra trás
E não volte pra ele nunca
Nunca mais

Porque ao longo desses meses
Que eu estive sem você
Eu fiz de tudo pra tentar te esquecer

Eu já matei você mil vezes
E seu amor ainda me vem
Então me diga: quantas vidas você tem?"

- Paulinho Moska

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Maktub

“Maktub”
Te beijo através do seu capacete e entro no carro.
“Tinha que acontecer”
Fecho os olhos e respiro fundo. Te ver indo em direção contrária ainda me faz querer correr até você.
“Maktub. Tinha que acontecer”, eu repito.
A voz rouca denuncia mais uma noite de conversa que resultou novamente na plena confirmação de que sou totalmente sua.
Dou partida no carro.
“Como pude ir embora?”
Seu cheiro impregnado na minha pele me inebria e fascina.
Como pude pensar em viver sem isso?
A dor me atinge como um soco ao me lembrar do passado que ainda nos assombra.
“Maktub”,
Eu insisto tentando impedir que o medo de te perder me apavore mais uma vez.
Olho no retrovisor e meus olhos refletem o amor que a cada dia cresce e se fortalece mais.
Sorrio ao senti-lo em cada parte da minha existência e constato
“Tinha que acontecer”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Rebelião

A saudade me atravessa e não tem pressa
Ela ocupou o seu lugar na casa, na cama e no banho
A minha escova tá solitária
Não tem a sua pra conversar
E o violão tá cabisbaixo
Sem público pra se apresentar
O guarda roupa anda triste
Sem suas roupas pra abrigar
A cama todo dia reclama
Me pergunta onde você está
Mas o travesseiro tá em silêncio
Se recusa a dialogar
O colchão da sala se rebelou
Brigou e se negou a tombar
O sofá tá tão ranzinza
Que nem dá pra sentar
As galinhas da mesinha
Cacarejam em seu favor
Dizem querer morar na cozinha dos seus sonhos
E ter a vida que eu não consigo dar
A tostadeira, depressiva, nunca mais foi utilizada
Ameaça suicídio, caso você não volte pra casa
A TV e o video game se colocaram pra adoção
Não querem morar juntos após tamanha desilusão
O fogão tá raivoso, ameaçando me queimar
Por eu ter ido embora sem nem pra trás olhar
A geladeira anda rindo da minha estupidez
Abro e fecho a porta sem comer nenhuma vez
O microondas tá se drogando, cansou da realidade
Vive dopado de calmante e evita a ver a verdade
O chuveiro tá estressado, só vive de cabeça quente
Fala que cansou do meu choro que é sempre persistente
E nesssa rebelião de móveis que vivo
Sinto falta da tua euforia
Daquela alegria que só sentia com você
O amor tá vivo e acreditando
Que em algum dia você volta e vem me ver.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A dor da liberdade

A liberdade tem um preço. Sempre tem.
E comigo não foi diferente.
Você era o meu maior sonho,
Meu começo, meio e fim.
Mas com o tempo, eu vi que, com você,
Eu só encontraria fim.
O começo? Conturbado.
O meio? Machucado.
E no fim, enquanto você esbravejava
Aquelas palavras tão duras,
Eu tive a certeza de que partir era a melhor opção.
Eu, que amei intensamente,
Imensamente
E irremediavelmente,
Me vi afogando com você.
Por maior, forte e esperançoso
Que fosse aquele amor,
Eu amo a mim primeiro.
Por amor a mim,
Por amor a ti,
Escolhi partir.
Percebi que não importava
Quantas vezes eu tentasse
Ou como o fizesse,
É impossível reparar o irreparável.
Semanas após a despedida,
O peito ardia, sentia na alma
A saudade, o apego
Que insistia em alimentar a minha insônia.
Sonhei com você por noites a fio,
Chorei no silêncio da noite
E traguei a nicotina
Na tentativa de preencher
O vazio que você deixou.
Foi naquela Terça-Feira
Com o coração já em frangalhos
Que o único fio que me ligava a você
Foi rompido.
Ali, no auge do meu desespero
Por ver você dando a outra
Aquilo que um dia havia sido tão meu,
Eu senti a dor da liberdade.




segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A força da alma

A vida era bagunçada
Eu vivia na eterna jogada
De desejar e conquistar
Aquilo que o corpo pedia
Mas a alma relutava em aceitar.

O coração era machucado
Pedia por um pouco de paz
Mas a carne era mais forte
E o coração tornava a calar.

Até que um dia conheci
Quem iria imaginar?
Aquela que me domou o corpo
E o coração conseguiu conquistar.

A alma ficou encantada
Se alegrou e começou a dançar
Ganhou mais vida e liberdade
Quando finalmente aprendeu a amar.

O coração, apaixonado,
Se pôs a compor
Os mais lindos versos
Para o seu primeiro amor.

O corpo, enfim domado,
Aprendeu a mais bela lição
Que paciência é uma virtude
E que acima de tudo
Está a compreensão.

Os três então, finalmente unidos
Buscam apenas um fator
Amar Gabriella com todo carinho,
Respeitá-la e honrá-la
Na alegria e na dor.

Pois sabem que naquele sorriso tão belo
No olhar mais sincero
E no beijo mais doce
Encontraram a resposta:

Que a força da alma é o amor.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Posso?

Posso te abraçar?
Me aproximar pelas suas costas, passar meus braços ao seu redor e roçar de leve a sua nuca...
Posso te tocar?
Passar as pontas dos dedos suavemente pela sua pele, sentir seu cheiro e ver você arrepiar com o roçar dos meus lábios no seu pescoço, suave, devagar...
Posso te beijar?
Tocar seus lábios com os meus, prendê-los, mordê-los, provar o gosto da sua boca, enroscar minha língua na tua, sentir teu corpo colado ao meu...
Posso te ver?
Descer minhas mãos pelo seu corpo, livrar-te do tecido que a impede de ser você...
Posso te sentir?
Penetrar no calor do teu corpo, sentir seu prazer jorrar através do líquido quente...
Posso te amar?
Envolver seu corpo extasiado com todo o amor que guardei em meu peito somente pra você...
Posso ficar?
Te fazer dormir no mais profundo sono para que logo pela manhã você possa acordar e ter a certeza de que você me basta e mais ninguém.