terça-feira, 11 de abril de 2017

Não dito

"Sempre troquei palavras pelo silêncio, covarde e comodamente acreditando que o não dito teria sua voz calada pelo tempo. Abafada pelo tic-tac dos ponteiros. Que seria encoberta por cada novo nascer de sol.
Seria lógico. Perfeito. Só não caberia nessa vida tão sem jeito.
O que não foi dito continua pensado. Por isso permanece. Com voz baixa. Fraca. Um quase sussurro, um quase lamento. Um quase tormento. Ainda aqui dentro.
Ecoando pelo peito. Reverberando na cabeça. Escorrendo em palavras pelo canto da boca. O não dito, hoje, faz-se ensurdecedor discurso que teimo em tentar esquecer."

- Não coube no caderno

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Carta não enviada

Entre um gole e outro de café, me pego pensando no passado. Tantas coisas deixadas para trás e tantas ainda tão presentes em mim.
Vez em quando, cometo o deslize de pensar em você. Há meses me forcei a acabar com esse hábito. Doce ilusão.
Por onde você anda?
O que tem feito?
Está feliz?
Como foi seu dia?
Ainda pensa em mim ou eu sou aquele capítulo do livro que você jurou nunca mais ler?
Muitas perguntas, nenhuma resposta.
Entre as minhas tantas promessas não cumpridas, existe uma única que pretendo cumprir: te deixar pra trás. 
Mas por mais que eu tente com a maior determinação que há em mim, eu sempre volto à essas questões.
Sabe, eu gostaria de poder conversar com você livremente, como se fosse só mais uma das nossas antigas conversas bobas, tão cheias de risadas e sem nada de sentido. 
Sinto sua falta. E isso é algo que estou a meses relutando admitir pra mim mesma, já que jurei te deixar em paz de uma vez.
Mas eu ainda sinto aquela conexão que nunca compreendemos, sinto que não importa aonde esteja, eu sempre estarei perto de você. 
Em uma das minhas atitudes tolas, disse a você que me afastava por não me sentir confortável com tudo aquilo, mas o que eu nunca disse é que o meu maior medo sempre foi voltar a depositar meus desejos egoístas em você. Eu jamais me perdoaria de novo.
Você tem um coração maravilhoso, como eu já disse outras vezes e acredito que agora, mais do que nunca, você sabe disso.
Sabe, eu ainda olho para o céu e peço que, seja lá qual for a força maior que rege esse universo, cuide de você. Mesmo depois de todo esse tempo, eu ainda sinto uma vontade absurda de te proteger de todo o mal. Por fim, o maior mal acabou que fui eu.
Eu queria poder te dizer que não importa quando, eu sempre estarei aqui pra você. Pra ouvir, conversar, qualquer coisa. Mas não posso.
Ao fim de tudo o que passamos, eu mudei muito e acredito que você também. Você ficaria surpresa em conhecer meu novo eu. Adoraria que conhecesse, um dia. Assim como adoraria te conhecer novamente. Mas isso é apenas a esperança de alguém que prefere jogar palavras ao vento em um blog não visualizado do que ter a coragem de dizer.
Eu passei a acreditar realmente que as coisas tem hora certa pra acontecer e sei que a hora não é essa. Talvez, ela nunca chegue.
Independe disso, eu queria que soubesse que sou muito grata por tudo que me ensinou e por tudo que deixou de me ensinar. Foram fundamentais para que me tornasse quem sou.

Espero que esteja bem, Pequena.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Isabel

Vamos fingir que é domingo, Isabel. Vamos fingir que a gente acabou bem, que tivemos de fato um fim. Vamos fingir que eu não volto, e fingir que você não me quer também. Vamos fingir serenidade, maturidade. Vamos fugir da realidade. E quem sabe, Isabel, assim eu possa me sentar outra vez sem o medo de que um pensamento desvairado seu me ocorra a mente e me faça cair na contra-mão. 

Vamos fingir que a dor não existe, Isabel. Ou você. Ou eu. E que seu nome é mudo e apenas o chá de camomila lhe pode escrever através das manchas que ficaram na nossa mesa da cozinha. Vamos fingir, por favor, pois estou cansado de fugir. Eu desisto desse contrato social de tentar ser forte e enfrentar, ou do próprio contra senso de correr. Não quero nada disso, não me encaixei. Você não se encaixou. Eu dei a mão pra esse mundo inteiro e me querem o dorso, o pescoço e tudo o que eu nunca imaginei oferecer.

Então vamos fingir que é domingo, que eu sentei na minha mesa, escrevi um texto sobre outra mulher, tomei um café forte e passei o dia bem. Vamos fingir que seu corpo nunca tocou o meu, que sua mão nunca entrelaçou a minha. Vamos fingir, pelo amor de quem for. O problema não é não dormir. Eu tenho sim dormido a noite. O problema é estar o resto do dia acordado e ter tudo o que vivemos sendo lembrado, traço por traço, desenhado na frente dos meus olhos acordados, toda vez que alguém sem querer me lembra de você. 

Isabel, vamos fingir que o seu cigarro apagou junto com o nosso nunca-amor (quase-amor?). Vamos fingir que você não fuma mais, e que eu não procuro em toda a fumaça de bar o seu batom escuro. 

Isabel, hoje é domingo.

(João Doederlein)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quantas vidas você tem?

"Meu amor
Vamos falar sobre o passado depois
Porque o futuro está esperando
Por nós dois

Por favor
Deixe meu último pedido pra trás
E não volte pra ele nunca
Nunca mais

Porque ao longo desses meses
Que eu estive sem você
Eu fiz de tudo pra tentar te esquecer

Eu já matei você mil vezes
E seu amor ainda me vem
Então me diga: quantas vidas você tem?"

- Paulinho Moska

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Maktub

“Maktub”
Te beijo através do seu capacete e entro no carro.
“Tinha que acontecer”
Fecho os olhos e respiro fundo. Te ver indo em direção contrária ainda me faz querer correr até você.
“Maktub. Tinha que acontecer”, eu repito.
A voz rouca denuncia mais uma noite de conversa que resultou novamente na plena confirmação de que sou totalmente sua.
Dou partida no carro.
“Como pude ir embora?”
Seu cheiro impregnado na minha pele me inebria e fascina.
Como pude pensar em viver sem isso?
A dor me atinge como um soco ao me lembrar do passado que ainda nos assombra.
“Maktub”,
Eu insisto tentando impedir que o medo de te perder me apavore mais uma vez.
Olho no retrovisor e meus olhos refletem o amor que a cada dia cresce e se fortalece mais.
Sorrio ao senti-lo em cada parte da minha existência e constato
“Tinha que acontecer”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Rebelião

A saudade me atravessa e não tem pressa
Ela ocupou o seu lugar na casa, na cama e no banho
A minha escova tá solitária
Não tem a sua pra conversar
E o violão tá cabisbaixo
Sem público pra se apresentar
O guarda roupa anda triste
Sem suas roupas pra abrigar
A cama todo dia reclama
Me pergunta onde você está
Mas o travesseiro tá em silêncio
Se recusa a dialogar
O colchão da sala se rebelou
Brigou e se negou a tombar
O sofá tá tão ranzinza
Que nem dá pra sentar
As galinhas da mesinha
Cacarejam em seu favor
Dizem querer morar na cozinha dos seus sonhos
E ter a vida que eu não consigo dar
A tostadeira, depressiva, nunca mais foi utilizada
Ameaça suicídio, caso você não volte pra casa
A TV e o video game se colocaram pra adoção
Não querem morar juntos após tamanha desilusão
O fogão tá raivoso, ameaçando me queimar
Por eu ter ido embora sem nem pra trás olhar
A geladeira anda rindo da minha estupidez
Abro e fecho a porta sem comer nenhuma vez
O microondas tá se drogando, cansou da realidade
Vive dopado de calmante e evita a ver a verdade
O chuveiro tá estressado, só vive de cabeça quente
Fala que cansou do meu choro que é sempre persistente
E nesssa rebelião de móveis que vivo
Sinto falta da tua euforia
Daquela alegria que só sentia com você
O amor tá vivo e acreditando
Que em algum dia você volta e vem me ver.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A dor da liberdade

A liberdade tem um preço. Sempre tem.
E comigo não foi diferente.
Você era o meu maior sonho,
Meu começo, meio e fim.
Mas com o tempo, eu vi que, com você,
Eu só encontraria fim.
O começo? Conturbado.
O meio? Machucado.
E no fim, enquanto você esbravejava
Aquelas palavras tão duras,
Eu tive a certeza de que partir era a melhor opção.
Eu, que amei intensamente,
Imensamente
E irremediavelmente,
Me vi afogando com você.
Por maior, forte e esperançoso
Que fosse aquele amor,
Eu amo a mim primeiro.
Por amor a mim,
Por amor a ti,
Escolhi partir.
Percebi que não importava
Quantas vezes eu tentasse
Ou como o fizesse,
É impossível reparar o irreparável.
Semanas após a despedida,
O peito ardia, sentia na alma
A saudade, o apego
Que insistia em alimentar a minha insônia.
Sonhei com você por noites a fio,
Chorei no silêncio da noite
E traguei a nicotina
Na tentativa de preencher
O vazio que você deixou.
Foi naquela Terça-Feira
Com o coração já em frangalhos
Que o único fio que me ligava a você
Foi rompido.
Ali, no auge do meu desespero
Por ver você dando a outra
Aquilo que um dia havia sido tão meu,
Eu senti a dor da liberdade.