Chove lá fora. O barulho me
hipnotiza, me chama e quando dou por mim, estou em meio a tempestade. O vento é
gélido, cortante. Eu não me importo. Não me permito recuar. Existem coisas mais
dolorosas do que isso, penso.
Meus olhos estão fechados, meus
cachos, ensopados e minha cabeça, inclinada em direção ao céu. Eu inalo o ar
frio implorando pra que ele entre e congele meu peito que arde desde a noite
anterior.
Minha alma tão cansada evoca dos meus
pulmões palavras sombrias, um desejo desesperado: só por hoje. Abro meus olhos
e sinto as lágrimas quentes se misturarem com a água que cai sobre mim. Elas
escorrem pelo meu rosto e peço que levem consigo as lembranças do sonho que me
preencheu a noite.
Só por hoje, repito. Se há realmente
uma força maior que rege esse universo, por favor. Me ouça.
Só por hoje, eu não quero pensar.
Só por hoje, eu não quero lembrar.
Só por hoje, eu não quero olhar para
o meu celular na esperança de vê-lo tocar.
Só por hoje, eu não quero sentir a
conexão que eu tento há tanto tempo matar.
Só por hoje, me leve daqui.
Suas palavras voltam à minha mente e
eu sinto meu corpo arder. Minha pele queima em si a raiva de fatos passados que
nunca morrem e que insistem em me assombrar.
Por favor, só por hoje leva de mim o
que restou. Faz desse meu caos, que é teu tormento, dissipar. Só por hoje, não
quero ser fogo. Quero ser ar.
Os filhos do fogo caminham só pois
queimam tudo ao redor, me disseram. Hoje, mais do que nunca, eu sei a
veracidade e o peso dessas palavras. Quem é fogo tem o dom de aquecer e
iluminar ao longe. Sua maldição é a de não poder ser tocado. Fogo só é seguro
quando vira brasa e, por fim, cinzas.
A chuva parou. O dia ao seu fim está
para chegar e amanhã, quando o sol raiar, eu novamente vou dizer:
Só por hoje.
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