quarta-feira, 12 de abril de 2017

Só por hoje

Chove lá fora. O barulho me hipnotiza, me chama e quando dou por mim, estou em meio a tempestade. O vento é gélido, cortante. Eu não me importo. Não me permito recuar. Existem coisas mais dolorosas do que isso, penso.
Meus olhos estão fechados, meus cachos, ensopados e minha cabeça, inclinada em direção ao céu. Eu inalo o ar frio implorando pra que ele entre e congele meu peito que arde desde a noite anterior.
Minha alma tão cansada evoca dos meus pulmões palavras sombrias, um desejo desesperado: só por hoje. Abro meus olhos e sinto as lágrimas quentes se misturarem com a água que cai sobre mim. Elas escorrem pelo meu rosto e peço que levem consigo as lembranças do sonho que me preencheu a noite.
Só por hoje, repito. Se há realmente uma força maior que rege esse universo, por favor. Me ouça.
Só por hoje, eu não quero pensar.
Só por hoje, eu não quero lembrar.
Só por hoje, eu não quero olhar para o meu celular na esperança de vê-lo tocar.
Só por hoje, eu não quero sentir a conexão que eu tento há tanto tempo matar.
Só por hoje, me leve daqui.
Suas palavras voltam à minha mente e eu sinto meu corpo arder. Minha pele queima em si a raiva de fatos passados que nunca morrem e que insistem em me assombrar.
Por favor, só por hoje leva de mim o que restou. Faz desse meu caos, que é teu tormento, dissipar. Só por hoje, não quero ser fogo. Quero ser ar.
Os filhos do fogo caminham só pois queimam tudo ao redor, me disseram. Hoje, mais do que nunca, eu sei a veracidade e o peso dessas palavras. Quem é fogo tem o dom de aquecer e iluminar ao longe. Sua maldição é a de não poder ser tocado. Fogo só é seguro quando vira brasa e, por fim, cinzas.
A chuva parou. O dia ao seu fim está para chegar e amanhã, quando o sol raiar, eu novamente vou dizer:

Só por hoje.

Janeiro

"Teria paz se não tivesse sangue
Se o coração não conseguisse trabalhar
Esqueceria tudo do começo
E viveria toda a vida sem pensar

Não tomaria tantos comprimidos
Apagaria o que me dessem pra fumar
Talvez tudo fizesse algum sentido
Talvez o que é sentido possa se apagar
Apaga do teu coração
As marcas de um tempo atrás
E saiba que eu não sei viver
Com o estrago que o tempo faz"

- Esteban

terça-feira, 11 de abril de 2017

Não dito

"Sempre troquei palavras pelo silêncio, covarde e comodamente acreditando que o não dito teria sua voz calada pelo tempo. Abafada pelo tic-tac dos ponteiros. Que seria encoberta por cada novo nascer de sol.
Seria lógico. Perfeito. Só não caberia nessa vida tão sem jeito.
O que não foi dito continua pensado. Por isso permanece. Com voz baixa. Fraca. Um quase sussurro, um quase lamento. Um quase tormento. Ainda aqui dentro.
Ecoando pelo peito. Reverberando na cabeça. Escorrendo em palavras pelo canto da boca. O não dito, hoje, faz-se ensurdecedor discurso que teimo em tentar esquecer."

- Não coube no caderno

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Carta não enviada

Entre um gole e outro de café, me pego pensando no passado. Tantas coisas deixadas para trás e tantas ainda tão presentes em mim.
Vez em quando, cometo o deslize de pensar em você. Há meses me forcei a acabar com esse hábito. Doce ilusão.
Por onde você anda?
O que tem feito?
Está feliz?
Como foi seu dia?
Ainda pensa em mim ou eu sou aquele capítulo do livro que você jurou nunca mais ler?
Muitas perguntas, nenhuma resposta.
Entre as minhas tantas promessas não cumpridas, existe uma única que pretendo cumprir: te deixar pra trás. 
Mas por mais que eu tente com a maior determinação que há em mim, eu sempre volto à essas questões.
Sabe, eu gostaria de poder conversar com você livremente, como se fosse só mais uma das nossas antigas conversas bobas, tão cheias de risadas e sem nada de sentido. 
Sinto sua falta. E isso é algo que estou a meses relutando admitir pra mim mesma, já que jurei te deixar em paz de uma vez.
Mas eu ainda sinto aquela conexão que nunca compreendemos, sinto que não importa aonde esteja, eu sempre estarei perto de você. 
Em uma das minhas atitudes tolas, disse a você que me afastava por não me sentir confortável com tudo aquilo, mas o que eu nunca disse é que o meu maior medo sempre foi voltar a depositar meus desejos egoístas em você. Eu jamais me perdoaria de novo.
Você tem um coração maravilhoso, como eu já disse outras vezes e acredito que agora, mais do que nunca, você sabe disso.
Sabe, eu ainda olho para o céu e peço que, seja lá qual for a força maior que rege esse universo, cuide de você. Mesmo depois de todo esse tempo, eu ainda sinto uma vontade absurda de te proteger de todo o mal. Por fim, o maior mal acabou que fui eu.
Eu queria poder te dizer que não importa quando, eu sempre estarei aqui pra você. Pra ouvir, conversar, qualquer coisa. Mas não posso.
Ao fim de tudo o que passamos, eu mudei muito e acredito que você também. Você ficaria surpresa em conhecer meu novo eu. Adoraria que conhecesse, um dia. Assim como adoraria te conhecer novamente. Mas isso é apenas a esperança de alguém que prefere jogar palavras ao vento em um blog não visualizado do que ter a coragem de dizer.
Eu passei a acreditar realmente que as coisas tem hora certa pra acontecer e sei que a hora não é essa. Talvez, ela nunca chegue.
Independe disso, eu queria que soubesse que sou muito grata por tudo que me ensinou e por tudo que deixou de me ensinar. Foram fundamentais para que me tornasse quem sou.

Espero que esteja bem, Pequena.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Isabel

Vamos fingir que é domingo, Isabel. Vamos fingir que a gente acabou bem, que tivemos de fato um fim. Vamos fingir que eu não volto, e fingir que você não me quer também. Vamos fingir serenidade, maturidade. Vamos fugir da realidade. E quem sabe, Isabel, assim eu possa me sentar outra vez sem o medo de que um pensamento desvairado seu me ocorra a mente e me faça cair na contra-mão. 

Vamos fingir que a dor não existe, Isabel. Ou você. Ou eu. E que seu nome é mudo e apenas o chá de camomila lhe pode escrever através das manchas que ficaram na nossa mesa da cozinha. Vamos fingir, por favor, pois estou cansado de fugir. Eu desisto desse contrato social de tentar ser forte e enfrentar, ou do próprio contra senso de correr. Não quero nada disso, não me encaixei. Você não se encaixou. Eu dei a mão pra esse mundo inteiro e me querem o dorso, o pescoço e tudo o que eu nunca imaginei oferecer.

Então vamos fingir que é domingo, que eu sentei na minha mesa, escrevi um texto sobre outra mulher, tomei um café forte e passei o dia bem. Vamos fingir que seu corpo nunca tocou o meu, que sua mão nunca entrelaçou a minha. Vamos fingir, pelo amor de quem for. O problema não é não dormir. Eu tenho sim dormido a noite. O problema é estar o resto do dia acordado e ter tudo o que vivemos sendo lembrado, traço por traço, desenhado na frente dos meus olhos acordados, toda vez que alguém sem querer me lembra de você. 

Isabel, vamos fingir que o seu cigarro apagou junto com o nosso nunca-amor (quase-amor?). Vamos fingir que você não fuma mais, e que eu não procuro em toda a fumaça de bar o seu batom escuro. 

Isabel, hoje é domingo.

(João Doederlein)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quantas vidas você tem?

"Meu amor
Vamos falar sobre o passado depois
Porque o futuro está esperando
Por nós dois

Por favor
Deixe meu último pedido pra trás
E não volte pra ele nunca
Nunca mais

Porque ao longo desses meses
Que eu estive sem você
Eu fiz de tudo pra tentar te esquecer

Eu já matei você mil vezes
E seu amor ainda me vem
Então me diga: quantas vidas você tem?"

- Paulinho Moska

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Maktub

“Maktub”
Te beijo através do seu capacete e entro no carro.
“Tinha que acontecer”
Fecho os olhos e respiro fundo. Te ver indo em direção contrária ainda me faz querer correr até você.
“Maktub. Tinha que acontecer”, eu repito.
A voz rouca denuncia mais uma noite de conversa que resultou novamente na plena confirmação de que sou totalmente sua.
Dou partida no carro.
“Como pude ir embora?”
Seu cheiro impregnado na minha pele me inebria e fascina.
Como pude pensar em viver sem isso?
A dor me atinge como um soco ao me lembrar do passado que ainda nos assombra.
“Maktub”,
Eu insisto tentando impedir que o medo de te perder me apavore mais uma vez.
Olho no retrovisor e meus olhos refletem o amor que a cada dia cresce e se fortalece mais.
Sorrio ao senti-lo em cada parte da minha existência e constato
“Tinha que acontecer”.